Francisco Lindembergue Rodrigues da Silva

Breve História da Música Evangélica/Protestante

Neste artigo discorremos brevemente sobre a história da música evangélica/protestante. Para contextualizarmos, abordamos também o conceito de música sacra. Falamos de forma concisa dos primeiros relatos da música dedicada ao Sagrado registrado nas Escrituras Sagradas, e dedicamos uma atenção para a chegada da música protestante (evangélica/gospel) no Brasil até alcançar as grandes massas com o auxílio da mídia.


Os primórdios da música na terra, conforme relato do primeiro livro da Bíblia Sagrada, parecem pobres quando comparados com relatos relacionados à “música do céu”. Mas, apesar de haver sido simples, a música é mencionada no livro de Gênesis. A música instrumental surge, segundo as Escrituras Sagradas, na sétima geração depois de Adão, o qual ainda vivia. O livro de Gênesis capítulo 4; 21 destacam de forma breve, apenas apontando Jubal como sendo pai dos que tocam lira, pífaro e flauta. Destacamos, a seguir, duas versões de traduções bíblicas levemente distintas, deste mesmo trecho: “[...] e Ada teve a Jabal; este foi o pai dos que habitam em tendas e têm gado. E o nome do seu irmão era Jubal; este foi o pai de todos os que tocam harpa e órgão ”; “E o nome do seu irmão era Jubal; este foi o pai de todos os que tocam harpa e flauta” .

Como mencionamos acima o relato é simples, mas, podemos observar que a música já está presente no contexto dos primórdios com o intuito sempre de dar louvor ao Sagrado como podemos ver em outros contextos quando se fala em música ou qualquer outra forma de expressão artística nas Escrituras Sagradas.

A MÚSICA SACRA

Há diferentes opiniões a respeito do que seja música sacra. Tradicionalmente entende-se por música sacra qualquer música que não lembra a música do “mundo” e que desperta sentimento de religião, espiritualidade, santidade e desejo de adorar ao Criador. Deve-se lembrar de que a música não se torna sacra porque foi composta para ser tocada na igreja, e nem só porque é tocada na igreja. A música sacra é religiosa e se caracteriza como sendo sacra, ou seja, sagrada, porque promove uma visão correta de Deus, de sua justiça e de seu amor. Sua letra deve comunicar uma mensagem bíblica doutrinária, de gratidão e de louvor ao Criador (Graciliano Martins, 1997, p.1).

Temos ainda o termo música gospel que é uma expressão procedente do inglês God spell e que traduzida ao pé da letra significa “palavra de Deus”. O gênero gospel como é conhecido no Brasil e no mundo é mais uma influência norte-americana no nosso meio. A expressão gospel remete-nos a tudo o que é produzido nos meios evangélicos, e isso inclui produtos comerciais, como adereços, camisetas, utensílios, matérias em periódicos, estilos de encontros e eventos e, ultimamente, transportado também para a indumentária, que pretende criar um padrão de apresentação pessoal, com vistas à (tentar) dar identidade a um grupo cristão. O que fora apresentado a respeito do termo gospel também se aplica à expressão “evangélica” nesse contexto.

 A MÚSICA PROTESTANTE/EVANGÉLICA NO BRASIL

A religiosidade dos tupinambás está epicamente descrita no livro do alemão Hans Staden - prisioneiro dos tupinambás por 08 meses - quando este diz que eles nada sabem ou querem saber sobre a criação do mundo. “Parece-lhes natural que tudo exista e não se importam com quem criou tal ou qual coisa. Seus contatos com o sagrado eram feitos ao som de uma espécie de chocalho, feito de uma cabaça, em que fazem um furo e colocam pedrinhas dentro, chamando-o de tamaraka.” Segundo Silva (2013, p. 11), no século XVI, ouvia-se apenas o som dos maracás, ocasião solene, interrompida apenas pelo canto dos pássaros, o coaxar dos sapos, o bramido das águas. Staden (1900 [1557] apud SILVA, 2013, p. 11) relatou em seu livro que:

Quando um grande chefe quer dar algum incentivo às outras tribos, percorre todo o “país” deles - no caso, percorre as cabanas dos da mesma raça -, e realiza um ritual. Nesse ritual o líder religioso enfumaça cada tamaraka, e lhe transfere, então, algum poder.

Esses eram os sons que embalavam os rituais de uma das etnias que habitavam o Brasil na época da chegada das Naus portuguesas. Segundo esse relato, produzido em 1554, e publicado em 1557, os tupinambás acreditavam que esse chocalho tinha poder. O fato é que os rituais eram embalados ao som de rudimentares instrumentos de percussão e que podem ter servido para organizar o raciocínio dos envolvidos no evento, visto que os sons eram ritmados e, ao que se sabe, a música e o ritmo organizam os pulsos cerebrais, transmitindo a noção de ordem e, quem sabe, de organização hierárquica (SILVA, 2013).

No caso específico dos Tupinambás do século XVI, quando o adivinhador, Paygi, (pajé) transforma em ídolos todos os chocalhos (tamarakas), cada um toma o seu chocalho e lhe chama de “querido filho”, fazendo para ele uma pequena cabaninha dentro de sua casa. Oferecem-lhe comida, e este pede tudo o de que precisa. Quando fazem um enterro, algumas etnias indígenas colocam perto do túmulo certas comidas, de que os mortos gostavam em vida, neste caso, apenas ao som de longas recitações, onde as vogais se sobressaem, lembrando os nossos aboios sertanejos (SILVA, 2012 apud SILVA, p.11).

O homem sempre teve a necessidade de se relacionar com algo que entenda ser superior, e a música se colocou como sendo uma das ferramentas mais utilizadas, porém sempre foram encontradas diversas maneira de cultuar. Desde os tamarakás, que inspiraram a atual caxirola de Carlinhos Brown, há uma longa história sobre as formas de entoar o louvor ao sagrado no Brasil, embalada pelos ritmos e percussões.

O contato com outras formas de melodias veio junto com os primeiros instrumentos apresentados pelos portugueses, quando da sua vinda ao nosso litoral. Apresentaram instrumentos que encantavam os nativos sul-americanos, e os atraiam às celebrações religiosas. Desde o início ocorre assim: a música seduz nossos ouvidos e as mensagens vêm “de carona”, encontrando solo fértil no imaginário e na cosmologia de um povo que explica o universo de maneira peculiar, conforme a sua etnia. Às vezes, os discursos sobre a origem do mundo se encontram entre as diversas tradições e povos, como é o caso do relato sobre o dilúvio, que teria exterminado a vida na terra, tendo sido objeto de relato pelos cristãos, pelos judeus, e também pelos Tupinambás. Talvez para evitar um novo dilúvio, sua população procurava cativar o sagrado através da percussão (SILVA, 2013).

Na ocasião em que esteve cativo na aldeia tupinambá, Staden teve a oportunidade de demonstrar sua fé através de um cântico, cuja letra é a recitação do salmo 130 (SOUSA, 2011 apud SILVA, p.12). Nesta especial ocasião ele registra, sem desígnio voluntário, a sua participação como o primeiro a cantar uma música protestante no Brasil.

Segundo Silva, a composição que cantara faz parte da extensa obra de Martinho Lutero. Embora essa não tenha sido uma ocasião formal de culto, foi à primeira vez de que se tem notícia de registro do canto de uma música evangélica no Brasil, fato que permanece incorporado à historiografia colonial brasileira.

Outros protestantes franceses pisaram o solo brasileiro, mais especificamente no ano de 1555, consequentemente, depois de Hans Staden cantar o Salmo que o livrou da morte pelos Tamoios (ou Tupinambás), isso sugere que o registro oficial de uma música protestante/evangélica entoada em nosso país fora nesse ano.

“Em outra leva, de 300 pessoas, ancorou em solo brasileiro um grupo de protestantes missionários, da França, em 1557, a mando de João Calvino” (SOUSA, 2011 apud SILVA, p.12). Nesse mesmo ano, Hans Staden (SILVA, 2013) publica na Alemanha a sua obra Viagens e Cativeiro entre os Selvagens do Brasil e acontece o primeiro culto no Brasil, especificamente na Baía de Guanabara, Rio de Janeiro, no dia 10 de março. Não se sabe o que louvaram nesse culto, mas provavelmente utilizaram os hinários, cuja base são os Salmos e Cânticos, chamados espirituais, pelo fato de serem instantaneamente inspirados, o que é uma tradição antiga no seio de algumas comunidades cristãs.

No século XVIII, não houve registro de atividades protestantes no Brasil. Isso provavelmente por razão da Inquisição inibitória de todas as práticas contrárias à doutrina da chamada religiosa oficial. Conclui-se que foi um século em que o movimento protestante/evangélico foi relegado ao isolamento. Já no século XIX, era possível encontrar relatos de cantores, grupos e músicos dentro de igrejas protestantes. As músicas cantadas, em sua maioria, eram de autoria dos missionários estrangeiros. Assim também existiam os hinários, principal veículo musical da fé protestante.

A CONTEMPORÂNEA MÚSICA EVANGÉLICA/PROTESTANTE NO BRASIL

Com o advento da revolução industrial o mundo passa a ser um lugar cada vez mais tomado por produtos manufaturados, o que compreende equipamentos de transporte, uma ampla variedade de máquinas industriais e instrumentos musicais, que permitiram a produção e registro de sons e vozes humanas.

No início do século XX, começam as primeiras gravações evangélicas no Brasil, inicialmente feitas em um cilindro de metal, com capacidade de armazenar apenas uma só música por unidade. Segundo Sousa:

A primeira gravação de uma música evangélica ocorreu em 1901, em São Paulo, pelo cantor José Celestino de Aguiar, antes mesmo de uma gravação secular. Na ocasião ele gravou a música Se nos Cega o Sol Ardente. Outro cantor evangélico, José D’Araújo Coutinho Júnior, de São Paulo dos Agudos- SP, na mesma época, gravou uma música de um coral com um cilindro usado (SOUSA, 2011apud SILVA, p. 14).

A música protestante, que hoje é conhecida por evangélica ou gospel, veio da Europa, e não da América do Norte. A influência dos Estados Unidos veio bem depois, com o gênero musical conhecido como Spiritual.

Com o crescente atilamento do movimento evangélico no Brasil (aliado ao advento das novas tecnologias de registros fonográficos) novos talentos foram revelados, juntamente com bandas e grupos musicais, fazendo dessa agitação uma grande ferramenta de evangelização e conversão religiosa. Em meados dos anos 1960 é que a música protestante começa a beber nas fontes da cultura gospel norte-americana, isso por conta da beleza cênica e do esmero nos arranjos musicais, somados à liberdade de expressão musical, que só era possível em ambientes marcadamente protestantes, e de viés pentecostal (SILVA, 2013).

As gravações em seus primórdios não parecem ter nenhum intuito de ser comercial, o propósito se concentrava inteiramente em propagar o evangelho e expandir a missão eclesial. Por volta de 1940 é que se começou a pensar no lado financeiro, até porque o custo para a produção de um disco de 78 rotações era muito elevado.

Entre as décadas de 1950 e 1960, o Brasil vivenciou uma transformação em sua concentração demográfica, ocasionando um êxodo rural. Tais pessoas, de pouca instrução formal, trouxeram consigo uma cultura musical muito peculiar, que influenciou os rumos da música evangélica no Brasil. A partir desse momento as músicas passam a ser elaboradas ao gosto do público recém-chegado. Os hinários tão prestigiados desde a época de Martinho Lutero abrem a guarda para os saberes das comunidades tradicionais, absorvendo o patrimônio cultural, material (instrumentos) e imaterial (saberes) trazidos por estas, em sua bagagem (SILVA, 2013), oferecendo um enriquecimento da mensagem central e promovendo aproximação entre a igreja e as pessoas.

A partir de então, o movimento evangélico ganha fôlego para angariar novos fiéis. A música passa a alcançar de forma pessoal às pessoas que levam a marca de vida simples, muitas das vezes embalada pelos ritmos da percussão africana.

A música evangélica caiu de tal forma no gosto popular que, até alguns cantores seculares passaram a cantá-la, movidos provavelmente pelo apelo de sua grande aceitação. Cantores que fizeram fama na época da Jovem Guarda como Wanderley Cardoso hoje continua na música, com nova roupagem. Anos mais tarde, principalmente na década de 90, tivemos outros exemplos de artistas do meio secular que aderiram ao processo de conversão evangélica, são eles o próprio cantor romântico Nelson Ned e a apresentadora infantil Mara Maravilha, fato que vem repercutindo positivamente nos meios artísticos seculares e evangélicos (SILVA, 2013, p.15).

Mesmo com a grande pulverização da música evangélica no mercado fonográfico, existiam ainda alguns preconceitos, dentro da própria comunidade protestante, como a distinção entre o santo e o profano, e também a repulsa que a sociedade tinha em relação àqueles que se denominavam “crentes”. Com isso alguns desafios foram vivenciados, como o desprezo da mídia secular e a pertinaz oposição contra o estilo musical em questão.

Fora nos anos de 1980, especialmente, que a música “gospel” se popularizou de forma mais intensa, quando alguns cantores e bandas como Asaph Borba, Ademar de Campos, Grupo Logos, Sérgio Pimenta, Shirley Carvalhaes, Vencedores por Cristo, Voz da Verdade, Koynonia fazem, do movimento, algo notório no país.

A MÚSICA DE ADORAÇÃO

O ato de adorar é propriamente a manifestação da adoração ao criador, pela criatura, e isto é observado em todas as linhas religiosas. No meio evangélico se popularizou a expressão “adoração”, exatamente pelo hábito de assim se proceder e, dedicar-se ao seu Senhor. Essa expressão se tornou muito comum nesse seguimento, pelo surgimento de bandas, grupos e ministérios de louvor que trazem, como uma característica peculiar, a palavra “adoração” incorporada às suas ministrações. E em uma concordância natural esses artistas gospels ficaram identificados como sendo levitas .

Uma das músicas que mais representa esse seguimento é “Deus Cuida de Mim” do cantor Kleber Lucas e que exemplifica perfeitamente o que é o estilo “adoração”. Segue-se o trecho da música: “Deus cuida de mim na sombra das suas asas/ Deus cuida de mim, eu amo a sua casa/ e não ando sozinho, não estou sozinho/ pois sei, Deus cuida de mim”.

No Brasil, alguns cantores e bandas ficaram rotulados de maneira positiva, como uma marca: “adoradores”; dentre os grupos e bandas que levam essa marca estão o grupo musical Diante do Trono, Aline Barros, Cely Muniz, Cristina Mel, David Quilan, Denise Cerqueira, Eyshila, Fernanda Brum e Soraya Moraes, para citar alguns. Todos esses representam bem essa vertente, devido aos louvores ministrados nas igrejas, levando o público a um estado reflexivo, de gratidão a Deus.

Destacamos desse estilo a cantora Soraya Morais que é uma das representantes da música de adoração no Brasil, que já vendeu milhares de cópias e ganhou três premiações no Grammy Latino.

 A MÚSICA PENTECOSTAL

Com o crescimento significativo do público evangélico e o aumento de diversas denominações pentecostais no país, a música gospel vivencia uma nova fase do segmento religioso principalmente nos anos 90 com a propagação de programas religiosos na mídia televisiva, com patrocínio de várias correntes denominacionais, o que facilitou a recepção do produto artístico musical das igrejas, além dos templos.

A música pentecostal foi uma das vertentes musicais dentro gospel que mais se destacou, principalmente pela composição das letras de linguagem simples, acentuadamente voltadas para as necessidades espirituais, emocionais e materiais do ser humano, com o emprego de expressões como: “azeite quente”, “varão de fogo”, “receba o mistério”, “receba a tua benção”, “varão de guerra”, entre outras, muito comuns nos ambientes propícios à manifestação do dito pentecostes.

Pentecostal é uma manifestação caracterizada pela espontaneidade na relação com o sagrado, de uma maneira que permite, aos fiéis, a exposição de manifestações pessoais de gratidão, entrega exclamações e diálogos com o sagrado. Afirma Silva (2013) que: A música cujo estilo tem o mesmo nome, ou seja, pentecostal, segue a mesma linha comportamental, valorizando a ação de Deus na vida pessoal do cristão. Até mesmo nos arranjos, as músicas pentecostais são vibrantes, impactantes, ornamentadas de dramaticidade, para que a mensagem tenha vinculação ao suporte musical. No meio evangélico diz-se que esse estilo é inconfundível, e alguns cantores fizeram fama e gozam de grande prestígio produzindo músicas dentro dessa linguagem musical, sendo conhecidos mais pelo seu estilo do que pelas mensagens contidas nas músicas.

Geralmente, os cantores pentecostais são conhecidos como “cantores do fogo”. Essa expressão é uma referência ao acontecimento que está registrado no livro Atos dos Apóstolos, escrito pelo apóstolo Lucas. Segundo o relato bíblico, línguas como de fogo desceram do céu e tomaram de conta de cada um que ali se encontrava e passaram a falar em outras línguas diferentes das que conheciam. Assim, o fogo é sinal de manifestação divina, desde o Antigo Testamento, quando o Profeta Moisés ouve a voz de Deus através de uma sarça que, apesar de estar envolvida em chamas, não se consumia, mantendo-se íntegra fisicamente.

“As mensagens das músicas pentecostais evangélicas inicialmente, já manifestavam vocação para o imediatismo humano, dando ênfase à teologia da prosperidade, que prega curas instantâneas, restaurações emocionais e bênçãos” (SILVA, 2013, p.17). Assim, essa vertente da música evangélica trouxe mais espontaneidade na expressão da fé, o que, de certo modo, é sua característica mais peculiar – o contato direto com o sagrado. “Isso se nota até mesmo na diversidade cultural do próprio movimento evangélico, em todas as suas manifestações” (SILVA, 2013). Com isso, se amplia a influência nos espaços televisivos, alcançando um número maior de adeptos, tanto dentro dos próprios cultos religiosos como notadamente os de outras denominações.

Dentro desse segmento da música pentecostal, a cantora Cassiane é uma das que mais se destaca, sendo recordista de vendas de CDs no país, tendo atingido em um só álbum a marca de mais de um milhão de discos vendidos. Para o pastor Nielson , esse sucesso de vendas se deve ao fato de Cassiane ter vindo, justamente, de um berço pentecostal e, quando se fala deste movimento, no Brasil, fala-se da maior denominação evangélica da América Latina, qual seja, a Assembleia de Deus. Segundo o pastor (apud SILVA, 2013):

Essa denominação surgiu (no Brasil) em meados de 1908, em Belém do Pará, e o pessoal fazia muito uso de pandeiro para cantar e, naquela época, não tinha essa gama de instrumentos pesados, como a guitarra e o baixo. Era apenas o pandeiro, uma música mais simples, mas muito eficiente, no sentido de comunicar a mensagem, de se cantar, de se reproduzir. Então essa musicalidade pentecostal é aprimorada e vai parar em uma expressão como da cantora Cassiane, que põe tudo o que tem direito e faz uma música mais elaborada, tendo como essência o poder do Espírito Santo (NIELSON, 2013 apud SILVA, 2013, p.18).

Dentro do segmento da música pentecostal no Brasil, outras artistas como Damares, Mara Lima, Jozyanne, Lauriete, Elaine de Jesus, Eliane Silva, Rose Nascimento e Shirley Carvalhaes representam bem essa vertente, devido aos louvores ministrados nas igrejas, levando o público a um estado de elevação espiritual e de fé, com canções que normalmente relatam acontecimentos extraordinários com profetas, relatos apocalípticos, milagres e curas.

2.6 A INDÚSTRIA CULTURAL EVANGÉLICA

Com tendências mercadológicas de qualquer produto dirigido às massas, surgem músicas evangélicas de contorno mais comercial e menos ideológico e doutrinário. Por outro lado, amplia-se o público atingido por esse tipo de mensagem, o que expande o universo de alcance evangélico. Com o crescimento do movimento evangélico no Brasil, cresce também uma nova lista de mercado, antes apenas direcionado pelo próprio segmento, e pelos seus paradigmas.

“A Indústria Cultural, um conceito criado pelos pensadores Theodor Adorno e Max Horkheimer, começa a manifestar-se de maneira categórica, dentro desse novo nicho de mercado” (Tomazi, 1993 apud SILVA, 2013, 19). Uma das características peculiares da Indústria Cultural é o consumismo, que paralelo ao crescimento populacional e a popularização da música gospel, passa a interferir no futuro desta no Brasil. Segundo Tomazi (apud SILVA 2013), a interferência da indústria cultural, junto aos consumidores, exerce um papel altamente nocivo, por ser sua finalidade apenas o lucro, tornando-os produtos, mercadorias culturais de menor conteúdo ideológico e de má qualidade artística. A padronização dos produtos é outra característica desta intervenção, o que sugere um imobilismo coletivo, por tratar-se, quase, de alienação massificada.

A música evangélica de certa forma rendeu-se à lógica do capitalismo e consequentemente perdeu um pouco de seu caráter existencial. Para Theodor Adorno

(...) a indústria cultural produz alienação nos consumidores, o que, no caso, trás um desestímulo ao público, em termos de senso crítico quanto à espiritualidade e, até mesmo, a mensagem teológica, que deveria estar massivamente salientada nos produtos evangélicos (apud SILVA, 2013, p.19).

Com a progressiva intervenção da indústria cultural no mercado de músicas e produtos evangélicos, o ponto de vista dos fiéis também mudou de público ouvinte para público consumidor. Percebemos que com a mudança de ponto de vista dos fiéis de ouvinte para consumidor, a questão de qualidade começa a entrar em discussão: de um lado há pessoas que reivindicam a qualidade na produção musical, por exemplo, a parte técnica no que diz respeito à construção melódica, harmônica e rítmica; e ainda há outros que criticam a má qualidade no que diz respeito ao conteúdo das letras, que deslocaram o foco da adoração ao criador para exaltar questões totalmente humanas, assumindo papel muito mais psicológico (motivacional) do que espiritual.

Com visão focada no lucro, houve a segmentação do mercado para vários tipos de estilos musicais, o que também é uma característica da indústria cultural. Passou-se a explorar vários nichos mercadológicos, com algumas padronizações voltadas para o público de cada grupo de igrejas, em específico; temos, por exemplo, as Assembleias de Deus que consomem determinado tipo de produto, enquanto as chamadas Comunidades absorvem as mensagens musicadas de outra forma, com outra roupagem. “Assim, fica mais racional a produção de produtos voltados a cada orientação doutrinária, que, por sua vez, traduz as preferências socioculturais de cada grupo, dentro do movimento evangélico como um todo” (SILVA, 2013, p. 20).

Segundo Silva (2013), a necessidade de vender impulsionou um tipo específico de marketing, bem como o uso de veículos midiáticos, voltado à venda de produtos evangélicos. O objeto da comercialização é um produto capaz de encantar imediatamente causando desejo de posse, sem contabilizar os gastos para aquisição do produto por parte do consumidor. Com isso a relação não é mais de devoção a Deus e sua palavra, mas de possuir um produto que remete ao espetáculo vivenciado no evento, no culto, na consagração, entre outros. Assim, os empresários (que seguem pessoalmente a fé protestante) começam a enxergar o quanto é promissor esse nicho, como afirma Silva:

Com a entrada da interferência da indústria cultural no mercado evangélico, as lojas de vendas de discos do mundo secular passaram a enxergar esse mercado como um nicho promissor e, da parte dos cantores, seu comportamento passa a se tornar profissional, com objetivos e carreiras administrados pelas tendências de mercado, uma vez que as suas apresentações deixam de ficar circunscritas à igreja que frequentam (SILVA, 2013, p.20).

As vozes evangélicas ganharam o “mundo,” sem fronteiras regionais, possibilitando a troca de experiências musicais de forma inter-denominacional. Ministros de louvor tipicamente batistas são convidados para demonstrar seus trabalhos em igrejas de diferentes orientações doutrinárias. Antes desse fenômeno, não era comum que cantores que ministravam seus louvores numa igreja Batista, por exemplo, fossem se apresentar numa Assembleia de Deus.

O resultado da pulverização da música gospel é a penetração de seus produtos em ambientes até então estranhos e avessos a essa linguagem musical. Se, por um lado, as letras das músicas passam a ser mais suaves, com composições musicais que não sejam puristas, voltadas a musicar somente os salmos, ou, restritas aos hinários, por outro lado essas letras chegam aos ouvidos do público não evangélico como mensagens despretensiosas, do ponto de vista da exortação ao arrependimento e conversão a uma determinada orientação ideológica (SILVA, 2013, p.20).

Essa proposta de uma música mais “imparcial” é uma forma pensada exatamente para alcançar maior mercado, pois assim pode obter aceitação tanto do meio evangélico como de pessoas que não são participantes do movimento.

Um exemplo de penetração da música evangélica em outras estruturas, fora dos moldes religiosos, é o da cantora evangélica Aline Barros que, ainda em meados da década de 1990, participa de um famoso programa de rede nacional e, mesmo que sem muitas pretensões, consegue romper estereótipos e conquistar um novo espaço no meio midiático, o que, de certo modo também trouxe uma abertura para os futuros artistas do mesmo segmento. Vale salientar que existia um considerável estranhamento ao movimento cultural evangélico nesse período. Ao longo de um árduo processo de inclusão midiática, a música gospel no Brasil passou por variados desafios.

Observamos nesse processo um novo um novo tipo de inclusão de classe, uma classe que pouco a pouco deixa de ser minoria e passa a ameaçar a hegemonia católica que até então dominava os eventos religiosos de massa. Se a cantora Fafá de Belém canta Ave Maria para o Papa João Paulo II , por outro lado, o mundo evangélico também conquista um espaço que, antes, nem sequer cogitava que poderia atingir.

 RAUL GIL E SUA CONTRIBUIÇÃO PARA A EXPANSÃO DA MÚSICA EVANGÉLICA NO BRASIL

O comunicador Raul Gil foi um dos precursores a contribuir com a expansão da música evangélica em termos mediáticos, é notório o incentivo do apresentador. Em termos televisivos, foi um dos pioneiros a favorecer a divulgação e valorização da música gospel brasileira. O pastor Nielson chancela essa afirmação dizendo:

Acredito que o apresentador Raul Gil foi o primeiro que deu a cara para bater dentro da grande mídia brasileira e realmente deixar o povo cantar como sabe como quer e gosta e depois você vê à rede globo de carrilhão copiando porque viu que para eles lá deu certo. Isso são sinais que exemplificam bem, que aquilo que estava apenas dentro de uma cozinha cristão evangélica, hoje está dentro da cozinha de todo o brasileiro, professe ele qual fé for (Nielson, 2013apud SILVA, 2013, p.22).

Ressaltamos que no conceito de grande parte dos evangélicos no Brasil, o apresentador Raul Gil é sim o “padrinho” dos cantores gospels e isso desde os tempos dos programas de calouros na Rede Record e Bandeirantes. Ele foi o primeiro a criar um quadro de homenagens aos cantores do segmento evangélico, o que teve grande repercussão no cenário nacional, com o quadro “Homenagem ao Artista”. Dentre os que foram beneficiários das homenagens temos: Aline Barros, Ana Paula Valadão, Cassiane, Eyshila, Fernanda Brum, Mara Maravilha e Regis Danese.

Destacamos Robinson Monteiro e Jamily como exemplo de cantores que foram descobertos pelo programa de calouros do apresentador Raul Gil, e que ingressaram na música gospel. Ambos começaram as suas carreiras já com um público cativo, graças à exposição positiva no programa de calouros mais famoso do Brasil.

Concluímos este capítulo retratando um pouco do perfil do consumidor evangélico. O crescimento em importância da música gospel em nosso país é resultado de diversos fatores, destacamos como principal a mensagem de transformação, mediante recompensa, atendimento de carências afetivas, atenção individual, e em alguns casos pontuais “negócios” rentáveis com Deus. Para Bufarah, isso estimula uma infinidade de respostas em seus receptores ele afirma que: “[...] O público consumidor “gospel” é fiel, porque esse material, em forma de mídias, seja CD DVD ou internet, recupera benefícios à sua própria alma, o seu espírito, encorajando-o em fé, amor, paz etc.”. (Bufarah, 2013 apud SILVA, 2013, p.23).

A música gospel é uma ferramenta que, geralmente, compõe o ambiente em que a pessoa convertida já se encontra inserida, a mensagem religiosa associada à melodia promove um efeito psicológico no indivíduo, que encontra albergue para as suas reflexões sobre as suas atitudes e o seu modo de proceder diante da vida. Para o pastor Nielson, a música promove ainda um ambiente para a construção de uma relação de fidelidade. Ele afirma:

O público evangélico, ele tem uma fidelidade muito grande com a música cristã evangélica ou gospel, o seu artista. Ele compra, ele consome o trabalho do artista dele, ele não consome o produto pirata. E a mesma pergunta que responde por que ele é um público fiel é a mesma pergunta que responde por que o CD pirata não faz tanto sucesso no meio dos crentes ou cristãos evangélicos. É porque ele não é fiel ao artista, ele é fiel a Deus ou pelo o menos deveria ser então ele é fiel ao Deus que ele quer adorar, então quando ele encontra uma música que ele julga boa para ele adorar, então ele compra, compra uma, duas, três, quatro... E enquanto aquela pessoa estiver conseguindo fazê-lo adorar, ele vai continuar consumindo (Nielson, 2013 apud SILVA, 2013, p. 23).

Analisando o público gospel, constatamos a afirmação de Nielson, e esse é o público que faz desse segmento musical um grande fenômeno de vendas. O que o torna diferente do segmento secular que é bem mais afetado pela pirataria. Os CDs gospel de determinados artistas evangélicos, antes mesmo de fazerem um trabalho de intensa divulgação, já saem das gravadoras com vendagens superiores a 40 ou 50.000 cópias, sendo premiados com discos de ouro, platina e outras formas de reconhecimento público (SILVA, 2013). Isso explica a referida fidelidade mencionada pelo pastor Nielson, de que o fiel não vai até o camelô e compra um CD pirata.

Esse é um fenômeno que tem chamado a atenção de diversas gravadoras que antes eram voltadas apenas para artistas do segmento secular, exemplo disso são as gravadoras Som Livre e Sony Music que, percebendo a repercussão midiática passou a aderir e a investir nesse segmento, lançando inclusive um selo gospel. A Sony Music, por exemplo, contratou as cantoras pentecostais Cassiane, Damares e Elaine de Jesus, todas com vendagens superiores a 50.000 cópias em cada CD lançado. Essa realidade parece se estender para dezenas de artistas do segmento evangélico no Brasil.